segunda-feira, fevereiro 08, 2010

O Peso da interpretação segundo Paulo Sacaldassy.

Ao abrir as cortinas do palco, nem sempre a surpresa é agradável, pois não é sempre que temos a felicidade de nos deliciarmos com a magnitude de uma boa interpretação. Sendo o teatro a arte do ator, o peso de uma interpretação é tudo.

Pouco importa o excelente figurino, o cenário deslumbrante, um texto primoroso, o que interessa é ver a entrega do ator em cena. E também, pouco importa se o espetáculo é um drama, uma comédia, ou um espetáculo infantil. O ator tem de ser pleno e absoluto em cena.
O ator tem de se entregar de corpo e alma, ser visceral, buscar nas entranhas, a melhor parte que a personagem solicitar. Não bastam caras e bocas, jeitos e gestos estereotípicos e micagem em cima do palco, nada disso convence e, põe a perder qualquer excelente produção.
A interpretação é a parte mais importante dentro de um espetáculo, pois é ele que conta a história, que sente a história, que vive a história, por isso, precisa mergulhar até o fim do poço a fim de conhecer o seu personagem. O ator deve e tem de colocar o seu peso na interpretação, assim é que se conhece um bom ator.
Tudo tem de ser meticulosamente cuidado, a voz, o andar, o falar, o jeito de se vestir... tudo isso, junto e misturado, vai construir a personagem que sustentará qualquer história, mesmo aquelas rasas e sem pretensões. E isso vale para qualquer ator que esteja em cena.
Não cabe a justificativa pífia de que por ter apenas duas ou três falas em cena, não é preciso todo esse empenho, muito pelo contrário. Há situações que essas duas ou três falas fazem a diferença de uma história. E imagine você: A grande chance de mostrar o seu potencial está em duas ou três falas, e você, talvez por se achar mais do que seja, desperdiça?
O ator é uma profissão que precisa ser levada a sério, até mesmo nos ensaios, aliás, é nos ensaios que um ator precisa se dedicar e caminhar em busca da melhor interpretação, pois, é nos ensaios que ele vai conhecendo pouco a pouco, o quanto o peso ele terá no espetáculo. Para aí sim, quando se der o abrir das cortinas, faça da sua interpretação um motivo de admiração.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:

– Meu tempo é quando.

Vinícios de Moraes

sábado, novembro 28, 2009

DE ONTEM EM DIANTE.

De ontem em diante serei o que sou no instante agora


Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa

Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada

são coisas distintas

Separadas pelo canto de um galo velho

Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho

Do versículo e da profecia

Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?

Minha vida inteira é meu dia inteiro

Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!

Minha mochila de lanches?

É minha marmita requentada em banho Maria!

Minha mamadeira de leite em pó

É cerveja gelada na padaria

Meu banho no tanque?

É lavar carro com mangueira

E se antes, um pedaço de maçã

Hoje quero a fruta inteira

E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa

Da luta não me retiro

Me atiro do alto e que me atirem no peito

Da luta não me retiro...

Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.

O TEATRO MÁGICO

quinta-feira, novembro 26, 2009


Não Percam!

domingo, novembro 22, 2009

O amor da minha vida eu encontrei, tem nome, é de carne e osso, e me ama também. Agora falta encontrar alguém com quem possa me relacionar. É que o homem da minha vida não cabe em mim e eu não caibo nele. Não basta que a gente se queira há muitos anos. Não basta nossos namoros longos, os rompimentos e a teimosia de desejar mais daquilo que não há de ser. Não presta que ele me visite pra acabar com as saudades e fuja correndo de pernas bambas e um bumbo no peito. Não importa que eu esqueça meu nome depois, nem que me perca num oco, ou que os sentimentos corram de ambos os lados, intensos e desarvorados. Não basta que haja amor para se viver um amor. Eu e ele somos as cruzadas da idade média, o Osama e o Tio Sam, o preto e o branco da apartheid, o falcão e o lobo, o Feitiço de Áquila. Seus mistérios me perturbam e minha clareza o ofusca. Tenho fascínio pelo plutão que ele habita, e ele vive intrigado por minha vênus, mas quando eu falo vem, ele entende vai. Enquanto ele avista o mar eu olho pra montanha. Quando um se sente em paz o outro quer a guerra. É preciso me traduzir a cada centímetro do caminho enquanto ele explica que eu também não entendi nada. Discordamos sobre o tempo, o tamanho das ondas, a cor da cadeira. O desacerto é de lascar, e não há cama que resista a tantas reconciliações - um dia a cama cai.

                                                                                                                                           Maite Proença.

terça-feira, novembro 03, 2009

segunda-feira, novembro 02, 2009


Nesta segunda-feira (02/11), dia de finados, não poderia haver data mais propícia para o lançamento do livro "A História Viva da Morada dos Mortos",

O Cemitério do Caju é considerado um dos maiores museus a céu aberto do Estado do Rio de Janeiro”, afirma o pesquisador Hélvio Cordeiro, do Instituto Historiar, responsável pelo projeto.

O objetivo do livro é o resgate cultural do costume de visitar o Caju não só no Finados para reverenciar os mortos, mas sim, para reverenciar a vida. Estamos ajudando as pessoas a descobrir a arte. Na França e na Inglaterra, os cemitérios são os pontos turísticos mais visitados durante todo o ano. As obras de artes do Caju são dignas de estar em qualquer museu do mundo, uma prova de que ele pode ser a casa dos vivos", disse o autor do livro.

O Tempo corre sem Tempo!



Há algum tempo atrás, o tempo nos permitia passar o ano inteiro esperando pelo Natal, pelas Férias, Reveillón, carnaval... tínhamos tempo para esperar e curtir a espera. Tempo de curtir uma primavera das mais bonitas a cada ano, os verões eram todos com muita chuva grossa e um calor gostoso,os invernos com cara de inverno e os outonos então... Agora alguma coisa está errada, um dos ponteiros do tempo perdeu o eixo e complicou a nossa vida.
Percebes? Mal o ano começa e ainda estamos a resolver as coisas que ficaram do ano que passou. Andamos com/sem tempo pra tudo, a correria do tempo nos conduz para uma linha de chegada que nem sabemos direito qual é, o que é, como é. Sabemos só que temos tempo pra fazer compras, ir ao banco, trabalhar, estudar, limpar a casa, arrumar a gaveta, lavar a roupa, levar os filhos, cozinhar, arrumar, pintar, construir, jantar, dormir... Uffaaa!!!
Ainda temos tempo??!!

CONFISSÃO DE CABÔCLO Zé da Luz

Seu dotô, sou criminoso. / Sou criminoso de morte. / Tou aqui pra mi intregá. / Vosmicê fique sabendo: / quando a muié traz a sorte / de atraiçoá o isposo, / só presta para se matá. Nunca pensei, seu dotô, / qui a mão nêga do distino, / merguiasse as minhas mão / no sangue dos assassino! / Vô li pidí um favô / ante de vossamercê / mi butá daqui pra fora: / é a licença do dotô / pr'eu li contá minha histora.

Sinhô dotô delegado, / digo a vossa sinhuria / qui inté onte fui casado / cum a muié qui im vida / se chamô Rosa Maria. / Faz dez mês qui se gostemo, / faz oito qui fumo noivo, / faz sete qui nós casêmo. / Nós casêmo e nós vivia / cumo pobre, é bem verdade, / mas a gente se sintia / rico de filicidade!

Pras banda qui nós morava, / no lugá Chã da Cutia, / morava tombém um cabra / chamado Chico Faria. / Esse cabra, antigamente, / tinha gostado de Rosa, / Chegaro inté a sê noivo, / mas num fizero a "introza" / do casamento, prumode / Mané Uréia de Bode, / Qui era padrim de Maria / tê dismanchado essa prosa.

Entoce, o Chico Faria, / adispois qui nós casêmo, / in cunversa, as veis dizia, / qui ainda mi dava fim / pra se casá cum Maria. / Dessa coisa eu sabia, / mas nunca dei importança. / Tinha toda cunfiança / na muié qui eu tanto amava, / ou mais mió, adorava./ Cum toda a minha sustança.

Dispois disso, o meu custume / era vivê trabaiando / sem da muié tê ciume. / A muié pru sua vez / nunca me deu cabimento / deu pensá qui ela fizesse / um dia um farcejamento. / Mas, seu dotô, tome tento, / no resto da minha histora, / qui o ruim chegô agora:

Se não me farta a mimória, / já faz assim uns três mêis, / qui o cabra, Chico Faria, / todo prosa, todo ancho, / quage sempre, mais das vêz, / avistava o meu rancho. / Puralí, discunfiado / como quem qué e não qué, / eu fui vendo qui o marvado / tentava a minha muié. Ou tentação ou engano, / eu fui vendo a coisa feia! / Pru derradêro eu já tava / C'a mosca detrás da urêia. / Os tempo foi se passando / e o meu arreceiamento / cada vez ia omentano.

Seu dotô, vá iscutano: / onte, já de tardezinha / o meu cumpade, Quinca Arruda, / mi chamô pra nós dança / num samba, lá na Varginha,/ na casa do mestre Duda. / Mestre Duda é um cabôco, / um tocadõ de premêra. / É o imboladô de côco / mió daquela rebêra. Entonce Rosa Maria, / sempre gostou de samba, / mas, porém, de tardezinha / me disse discunfiada, / qui pru samba ela não ia, / Qui tava munto infadada, / percisava se deitá. / Eu fiquei discunfiado / cum a preposta da muié! / Dispois qui tomei café, / cuage puro sem mistura, / cum a faca na cintura / fui pru samba, fui sambá. / Cheguei no samba, dotô, / repare agora, o sinhô, / quem era qui tava lá?

O cabra Chico Faria, / qui quano foi me avistando, / foi logo mi preguntando: / - cadê siá dona Maria, / num veio não, pra dançá? / - Não sinhô. Ficô im casa, / pru cabôco arrispondí. / Senti, entonce uma brasa / queimano meu coração, / nunca mais pude tirá / as palavra desse cabra / da minha maginação.


Perdí o gosto da festa / e dançá num pude não. / O cabra, pru sua vez, / num dançava, seu doutô. / De vez im quando me oiava / Cum um oiá de traidô. / Meia noite, mais ou meno, / se dispidino do povo / disse: - Adeus, qui eu já vô. / Quando ele se arritirô, / eu tombem me arritirei / atraiz dele, sim sinhô. / Ele na frente, eu atrais. / Se o cabra andava ligêro, / eu andava munto mais!

Noite iscura qui nem breu! / Nem eu avistava o cabra, / nem o cabra via eu! / Sempre andando, sempre andando, / ele na frente, eu atrais. / Já nem se iscutava mais
/ a voz do fole tocando / na casa do mestre Duda! / A noite tava mais preta / qui a cunciênça de Juda! / Sempre andando, sempre andando, / eu fui vendo, seu dotô, / qui o marvado ia tumando / direção da minha casa! / Minha casa!... Sim sinhô!

Já pertinho, no terrero, / eu mi iscundí pru detraiz / de um pé de trapiazêro. / Abaixadim, iscundido, / prendi a suspiração, / Abri os óio, os ouvido, / pra mió vê e ouvi / qual era a sua intenção. / Seu dotô, repare bem: / o cabra oiando pra traiz, / do mermo jeito qui faiz / um ladrão pra vê arguém, / num tendo visto ninguém, / na minha porta bateu! / De lá de dentro uma voiz / bem baixim arrispondeu.../ Ele entonce, cá de fora: / - Quem ta bateno sou eu! / De repente abriu-se a porta! / Aí seu dotô, nessa hora / a isperança tava morta, / tava morto o meu amô...

No iscuro uma voiz falô: / - Taqui, seu Chico, essa carta, / qui a tempo tinha iscrivido / pra mandá pra voismicê. / Pru favô num leia agora, / vá simbora, vá simbora / qui quando chegá im casa / tem munto tempo pra lê. / Quando minhas oiça ouviu, / as palavra qui Maria / dizia pru disgraçado, / eu fiquei amalucado, / fiquei quage cumo loco, / ou mio, cumo um cabôco / quando ta chêi de isprito! / Dum sarto, cumo um cabrito, / eu tava nos pés do cabra, / e sem querer dei um grito: / - Miserave! E arranquei / minha faca da cintura. / Naquela hora dotô, / eu vi o Chico Faria, / na bêra da sipurtura.

Mas o cabra teve sorte. / Sempre nessas circunstança / os home foge da morte. / Correu o cabra, dotô, / tão vexado, qui dexou / a carta caí no chão! / Dei de garrá o papé, / o portadô da traição! / Machuquei nas minha mão, / a honra, dotô, a honra / daquela farsa muié! / Dispois, oiando pra carta / tive pena, pode crer, / de num tê prindido a lê / nas letra alí iscrivida, / o qui dizia Maria / pru marvado traidô. / Tive pena, sim sinhô. / Mas, qui haverá de fazê, / se eu nunca prindí a lê?

Maria mi atraiçuô! / Essa muié qui um dia, / juêiada nos pé do artá / jurou im nome de Deus / qui inquanto tivesse vida, / havéra de mi honrá, / e mi amá cum todo amõ, / cum perdão do seu dotô./ quando eu vi a miserave / na iscurideza da noite / dos meu oio se iscondê, / sem dêxá nem sombra inté, / entrei pra dentro de casa / pra mi vingá da muié.

Dotô, qui hora minguada! / Maria tava ajuêiada, / chorando, cum as mão posta, / cumo quem faz oração. / Oiando pra eu pedia, / pelo cali, pela ostia, / pru Jesus crucificado, / pelo amo qui eu li amava, / qui num fizesse isso não.

Eu tava, dotô, eu tava / cego de raiva e paixão. / Sem dizê uma palavra, / agarrei nas suas mão, / levantei ela pra riba / e interrei inté o cabo, / o ferro da Parnaíba / pru riba do coração! / Sarvei a honra, dotô, / sarvei a honra, apois não!

Dispois qui vi a Maria / caí sem vida no chão, / vim fala cum vosmicê, / vim cunfessá o meu crime / e mi intregá a prisão. / Se osinhô num acredita / se eu sô criminoso ou não, / tá aqui a faca assassina / e o sangue nas minhas mão. / Cumo prova da traição, / tá aqui a carta, doutô. / Li peço um grande favô: / ante de vossa-sinhuria / mi mandá lá para prisão, / me lêia aqui essa carta / pr'eu sabê cumo Maria / perparava essa traição!